“Some daqui, velho, aqui quem manda somos nós!” — disse o homem poderoso com arrogância, empurrando o idoso. Ele não sabia que aquele pescador silencioso era uma lenda em rastreamento.

Os estilhaços do velho termoss se despedaçaram com um tilintar e se espalharam pelo cascalho molhado. O chá quente com tomilho, misturado com pedaços de vidro, foi imediatamente absorvido pela areia.

Boris Akimovich abaixou lentamente o olhar. Aquele termoss, com a gravação desgastada, foi o último presente de Anna. Ela o encomendou um ano antes de sua morte.

“Some daqui, velho, aqui quem manda somos nós!” — gritou um homem corpulento, inclinando-se de forma ameaçadora sobre a cadeira dobrável do idoso.

De seu hálito vinha cheiro de fumaça forte, chiclete de menta e algo que lembrava óleo de máquina. A dois metros dali, diretamente sobre a grama úmida, estava um SUV preto com vidros escurecidos e sem placas. O motor roncava baixo, e pela janela entreaberta ecoavam graves profundos de uma música estrangeira.

Boris Akimovich nem sequer se moveu. Observou calmamente o termoss quebrado, depois seus olhos desbotados se ergueram para o intruso.

“Este lugar não foi comprado, jovem. Vou esperar aqui até o amanhecer, e depois irei embora.”

O gigante fez uma careta. Com um movimento brusco, empurrou o velho, fazendo com que o boné caísse de sua cabeça grisalha; sua bochecha inchou imediatamente e um zumbido desagradável surgiu em sua cabeça.

A cadeira inclinou-se para o lado, mas Boris Akimovich manteve o equilíbrio. Calmamente, levantou a mão e ajeitou a gola de sua jaqueta impermeável.

“Acho que você não entende, fóssil” — sibilou o segundo homem, saindo do carro. Era um rapaz magro vestindo um agasalho de marca apertado demais.

Ele descascava sementes de girassol e cuspia as cascas diretamente na água. “Você tem exatamente um minuto para desaparecer, caso contrário haverá problemas sérios.”

O terceiro não prestava atenção neles. Estava bem à beira da água, tirou um medidor de distância do bolso e estudava atentamente a outra margem. Lá, além da larga faixa do rio, era possível ver os telhados de um bairro de alto padrão.

Nenhum pescador, nenhum local para churrasco. Apenas um olhar frio e calculista sobre os arredores.

Boris Akimovich levantou-se sem dizer uma palavra. Não ameaçou, não gritou com os delinquentes. Após quarenta anos trabalhando na polícia criminal, aprendeu uma coisa importante: a presa não deve ser espantada cedo demais.

Abaixou-se, recolheu as partes intactas do termoss e as colocou cuidadosamente em um saco plástico. Ao mesmo tempo, memorizava cada detalhe, até o menor.

O primeiro — alto, com a orelha esquerda danificada, mãos bastante feridas. Um homem que recorre rapidamente aos punhos, age por impulso.

O segundo — nervoso, olhar inquieto, um grosso cordão de ouro no pescoço, manca levemente da perna esquerda.

O terceiro — o mais cauteloso. Não disse uma palavra. Usava uma discreta jaqueta cinza, manuseava o equipamento de medição com profissionalismo, mãos firmes. O líder do grupo.

“Vamos, anda logo, velho” — gritou o rapaz magro atrás dele, quando o idoso seguiu em direção ao caminho da floresta.

Boris Akimovich continuou andando sem olhar para trás. Sob suas botas de borracha, galhos secos estalavam. Ele não sentia uma raiva comum. Em vez disso, despertava nele um antigo instinto aguçado — aquele que um dia o tornou o melhor investigador da região.

Depois de meia hora, chegou à sua casa na aldeia. O portão de madeira rangeu. No quintal havia cheiro de umidade e madeira recém-cortada. Boris Akimovich entrou na cozinha de verão, tirou os sapatos e sentou-se à mesa. Serviu um copo de água fria e o bebeu em dois grandes goles.

Em seguida, tirou do bolso o velho telefone. Sabia os números de cor.

“Alô” — disse uma voz baixa do outro lado.

“Pasha, oi. Não estou atrapalhando?”

“Boris Akimovich!” O tom mudou imediatamente, tornando-se mais caloroso. Pasha fora seu último aprendiz, agora chefiava o departamento no distrito vizinho. “O que aconteceu? O senhor está tão formal. Aconteceu algo?”

“Formalmente, Pasha, formalmente. Houve recentemente arrombamentos em casas de veraneio à beira da água por aí? Daquelas bem cercadas?”

Ouviu-se Pasha parar de digitar.

“Sim, houve três casos no último mês. Eles entram nas casas, levam cofres, objetos de valor, quadros. Muito limpo. Os seguranças na entrada não veem ninguém, e as câmeras nas cercas de repente parecem ficar cegas.

Já vasculhamos toda a cena local — sem resultado. Por que o senhor pergunta?”

“Porque eles não entram pela entrada principal, Pasha. Fogem pela água.”

Boris Akimovich fechou os olhos, reconstruindo a cena na mente.

“Hoje três homens apareceram em um banco de areia antigo. Um SUV japonês preto, coberto com película fosca. Não foram lá para descansar.

Um mede a distância até as casas, procuram um lugar para lançar um barco. O banco é raso, dá para chegar quase até a água. Dali até o bairro são apenas sete minutos com um bom motor.

Eles vão lançar uma rede de camuflagem, deslizar pela água escura — ninguém vai notar.”

“Entendo…” — murmurou Pasha, pensativo. O som de papéis sendo manuseados podia ser ouvido. “Há alguma descrição?”

“Anote. O primeiro é alto, com a orelha esquerda danificada. O segundo é magro, manca da perna esquerda, usa um cordão grosso de ouro. O terceiro é discreto, jaqueta cinza, trabalha profissionalmente com ótica.

E o carro faz um som característico ao arrancar — a mola traseira esquerda range.”

“Certo. O senhor acha que eles vão agir hoje?”

“A água está calma, a lua escondida atrás das nuvens. Tempo perfeito para eles. E, Pasha… eles são arrogantes. Acham que o mundo lhes pertence. Pessoas assim sempre cometem o mesmo erro.”

“Entendido, Boris Akimovich. Vou montar pontos de observação ocultos entre os juncos.”

Até tarde da noite, Boris Akimovich ficou sentado na varanda. Não acendeu a luz. Apenas observava a velha copa da macieira, que o vento balançava suavemente.

As pessoas frequentemente cometem o mesmo erro — julgam pela aparência. Veem uma jaqueta gasta, cabelos grisalhos, uma cadeira dobrável e pensam que não há ninguém importante diante delas.

Não sabem que existem idosos capazes de organizar a estadia de alguém em lugares muito distantes sem sequer levantar a voz.

O telefone vibrou às três e meia da madrugada.

“Pegamos eles” — disse Pasha, sua voz estava rouca, mas satisfeita. “Bem na água, quando voltavam com sacos cheios para a sua margem. Havia tanta coisa que daria para um bom apartamento na capital.”

“Eles resistiram?” — perguntou calmamente o velho.

“Resistência? Quase nenhuma. Cercamos eles por três lados. O grandão tentou reagir, mas os nossos explicaram rapidamente as regras para ele. Agora estão sentados no escritório, completamente mansos. O ‘cérebro’ começou a falar na hora. Sabia que já não tinha mais o que negar.”

Boris Akimovich sorriu de leve.

“Entendo. Vocês vão levar o caso até o fim.”

“Boris Akimovich… tem mais uma coisa. Quando eu interrogava aquele grandão, contei para ele quem nos deu a informação.”

“Por que você fez isso?”

“Não consegui me segurar. Eu disse: ‘Sabe, Valera, da próxima vez que você for bancar o esperto com um velho à beira do rio, é melhor pensar se aquele que você está insultando não é o mesmo que, nos anos 90, colocou metade das gangues locais atrás das grades.’”

“E então?”

“No começo ele ficou em silêncio. Ficou sentado, olhando para o vazio. Entendeu que arrumou problemas para si mesmo. Com um único movimento estúpido.”

“Certo, Pasha. Volte ao trabalho. A papelada até o fim de semana.”

“Obrigado, Boris Akimovich. Um dia passo aí, levo algo mais forte para o senhor!”

“Melhor trazer chá. Com álcool eu já parei há muito tempo.”

A manhã estava clara e sem vento. Boris Akimovich arrumou calmamente a mochila, pegou uma vara de pesca reserva e saiu pelo portãozinho. O caminho até o rio lhe era familiar até a última pedrinha.

Na velha faixa de areia já não havia ninguém. Apenas as marcas profundas de pneus na areia úmida lembravam os visitantes do dia anterior. Mas, ao olhar com mais atenção, Boris Akimovich notou na grama um pequeno pedaço de vidro brilhante.

Ele o pegou, girou entre seus dedos nodosos e o lançou na água. A água se fechou com um leve “ploc”.

Boris Akimovich armou a cadeira, colocou a isca e lançou o anzol com precisão. A bóia deslizava suavemente pela superfície lisa do rio. A justiça sempre encontra o seu caminho.

É preciso apenas ter paciência, não fazer movimentos desnecessários e ter uma memória excepcional. E ex-investigadores não têm problemas com memória.

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